É o fim

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O presidente Getúlio Vargas, em 1954, deu um tiro no próprio peito em nome da pacificação do Brasil.

Tentou pôr fim a uma grave crise com a sua morte.

Getúlio optou pelo cemitério de São Borja, a pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, onde nasceu, para sair da vida e entrar na história.

Isso ele próprio escreveu em sua carta testamento, lida à beira do túmulo por João Goulart.

Sessenta e três anos depois, outro presidente do Brasil resolve disparar outro tiro em meio ao silêncio agourento que pairava sobre o país nas últimas horas.

Só que agora, diferentemente de Getúlio Vargas, o presidente Michel Temer não disparou contra o próprio peito.

Disparou contra o coração do Brasil.

Disparou contra o coração do Brasil e feriu a alma de todos nós.

Feriu a alma dos brasileiros.

É impressionante nossa capacidade para produzir fatos.

É impressionante nossa capacidade de gerar novidades; é impressionante nossa capacidade de surpreender o mundo.

É impressionante, sobretudo, nossa capacidade de produzir coisas ruins.

Os últimos acontecimentos dizem isso.

O grampo onde o presidente Michel Temer aparece dando aval à compra do silêncio de Eduardo Cunha pode ser aquilo que costumamos chamar de pá de cal.

É aquela pá de cal que faz com que daqui para a frente tudo seja epílogo para Temer.

É o fim.

Não há como se sustentar um governo cujo comandante é pego com a boca na botija, apoiando mal feitos de aliados trancafiados em presídios.

Temer rasgou sua biografia, jogou fora seu passado de jurista renomado e de político conciliador.

Temer conseguiu com esse gesto levar um Brasil moribundo, gravemente ferido, para uma UTI que nunca tem vaga.

O Brasil está agonizando.

Nós estamos agonizando.

Com este governo, vamos também para o cemitério.

Temer, como diz o jornalista Josias de Sousa, perde completamente as condições de presidir o país.

Fica entendido algo que a delação da Odebrecht já deixara claro: Temer não é apenas complacente com a podridão.

Junto com o seu PMDB, ele é parte do lixão.

Resta apenas e tão somente decidir como o sistema político fará a recliclagem.

Nesses casos, o bom senso recomenda que o próprio Temer abrevie seu tempo na presidência.

O Palácio do Planalto, aliás, já foi avisado de que a própria base aliada quer a sua renúncia.

Seria neste momento a decisão mais sensata.

O presidente precisa compreender rapidamente que seu governo acabou ontem à noite, exatamente no momento em que o grampo era divulgado para todo o país.

Não há mais como continuar.

Se insistir em permanecer no comando, Temer estará cada vez mais afundando o país.

Sinceramente, não dá mais para continuar.

Opinião Jornal da Teresina I Edição (18.05.17)

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