Rouba, mas faz

0

Os costumes políticos no Brasil estão regredindo.

Ou, pelo menos, estão querendo nos levar de volta a tempos distantes, quase esquecidos.

Estamos voltando no tempo quando tentamos analisar determinadas questões da atualidade.

Nos anos  que vão de 1930 e 1960, o médico Adhemar de Barros, interventor e depois governador de São Paulo, ficou conhecido pelo slogan “rouba, mas faz”.

Fruto da imaginação popular, o slogan foi a forma encontrada pela própria população para fazer uma ilação entre o grande volume de obras do governo estadual e o crescimento a olhos vistos da fortuna do governador.

Com o slogan popular, o eleitor também queria justificar seu apoio a um governo corrupto, justificando o roubo do dinheiro público com as obras que davam empregos para as famílias.

Era como se o emprego nas obras funcionasse como uma espécie de imunidade para o crime de roubo.

Hoje, quase 70 anos depois do rouba mas faz de Adhemar de Barros, tenta-se mais uma vez justificar um erro com acertos administrativos.

Há quem considere que Lula, por ter implementado programas sociais como Bolsa Família, por ter construído casas populares, enfim, por ter ajudado a população pobre do Brasil, tenha adquirido o direito de praticar crimes.

Longe de ser um favor, cuidar dos mais pobres, cuidar dos mais vulneráveis, é simplesmente uma obrigação de qualquer governo.

E ao fazer isso, Lula ou qualquer outro gestor, na verdade, está apenas cumprindo com o seu dever, com o seu papel.

Gesto de boa vontade em direção aos mais necessitados será sempre um ato admirável, será sempre um ato que deve ser respeitado e reconhecido por todos.

Mas esses gestos de boa vontade não podem jamais servir para acobertar qualquer desvio de comportamento do homem público.

Nenhuma obra, nenhum programa social, nenhum reconhecimento público pode justificar um mal feito, por menor que seja ele.

Se Lula foi um bom presidente – e até reconhecemos que o foi – não há como justificar seu comportamento nesse episódio do tríplex do Guarujá, onde acaba de ser condenado.

Não há como, já nos anos 2 000, retornar ao tempo antigo do rouba mas faz de Adhemar de Barros.

Embora reconhecendo os benefícios recebidos, a população tem o dever e a obrigação de cobrar a correta aplicação dos recursos públicos, tem que cobrar transparência.

Também não há mais espaço para raciocínios distorcidos da realidade, raciocínios tipo se os outros roubaram também posso roubar.

Isso não é certo.

Um crime não pode servir de justificativa para outro crime.

Roubar é crime.

Corrupção também é crime tipificado no Código Penal Brasileiro.

E – diz a lei – quem comete crime tem que responder por ele, tem que pagar por ele.

Lula, ou quem quer que seja, ao cometer crimes, terá igualmente que responder por eles.

Afinal – como disse o juiz Sérgio Moro – a lei vai está sempre acima de você, acima de qualquer um.

Opinião Jornal da Teresina I Edição (17.07.17)

Deixe uma resposta