Vencimento do último tratado entre EUA e Rússia que limitava ogivas nucleares
Matéria de Júlia Castelo Branco
O vencimento do tratado New START, ontem (4), deixa Estados Unidos e Rússia sem qualquer limite formal para a produção e o posicionamento de ogivas atômicas. Para especialistas em relações internacionais, o fim do acordo representa a remoção do último mecanismo de contenção da corrida nuclear herdada do pós-Guerra Fria e inaugura uma fase de maior instabilidade e desconfiança no sistema internacional.
Considerado essencial para evitar uma escalada armamentista, o New START restringia o número de ogivas nucleares prontas para uso e previa mecanismos de verificação mútua, garantindo um mínimo de previsibilidade entre Washington e Moscou.
Com sua expiração, analistas afirmam que as potências passam a planejar suas estratégias assumindo sempre o pior cenário possível, o que tende a acelerar a modernização e a expansão de arsenais nucleares.
Segundo especialistas, o fim do tratado está diretamente ligado à ascensão da China como potência nuclear e à mudança de foco estratégico dos Estados Unidos, que hoje veem Pequim como principal rival global.

Enquanto Washington defende que qualquer novo acordo inclua os chineses, a China rejeita a ideia, alegando que EUA e Rússia ainda detêm vantagem significativa em número de ogivas.
Esse impasse consolida o que estudiosos chamam de uma “terceira era nuclear”, marcada pela ausência de limites claros, pela competição entre grandes potências e pelo enfraquecimento da lógica de não proliferação.
Embora o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) ainda exista, sua eficácia é questionada diante do descumprimento de regras e da rápida expansão do arsenal chinês.
A nova dinâmica não deve se restringir às grandes potências. Países que hoje não possuem armas nucleares, como Alemanha, Polônia, Coreia do Sul e Japão, já sinalizam debates internos sobre alternativas nucleares como forma de dissuasão. Além disso, alianças estratégicas, como a aproximação entre Arábia Saudita e Paquistão, indicam caminhos indiretos para o acesso a armamentos atômicos.
Outro fator de preocupação é o avanço tecnológico. O desenvolvimento de mísseis hipersônicos e o uso crescente da inteligência artificial em sistemas militares elevam o risco de decisões automatizadas em cenários de crise, reduzindo o tempo de resposta humana e aumentando o perigo de erros catastróficos.
Para analistas, o fim do New START não apenas encerra um tratado, mas redefine o ambiente estratégico global, tornando o futuro da segurança internacional mais incerto e potencialmente mais perigoso.
Fonte: G1.