Premiê espanhol diz que não será cúmplice de ataques considerados ilegais; tensão crescente após Washington ameaçar romper relações comerciais com Madri
Matéria de Júlia Castelo Branco
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, afirmou, hoje (4), que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está “brincando de roleta russa com o destino de milhões de pessoas” ao ampliar a ofensiva militar contra o Irã.
Em pronunciamento televisionado, Sánchez declarou que a Espanha não será cúmplice de ações que considera imprudentes e ilegais apenas para evitar possíveis retaliações comerciais.
A declaração ocorre após Trump ameaçar cortar relações comerciais com a Espanha. O presidente norte-americano criticou a decisão do governo espanhol de impedir o uso de bases navais e aéreas no sul do país por forças dos EUA em operações militares contra Teerã.
“É assim que começam as grandes catástrofes da humanidade. Você não pode jogar roleta russa com o destino de milhões”, afirmou Sánchez, reforçando que a posição oficial do governo espanhol pode ser resumida em três palavras: “Não à guerra”.
As tensões entre os dois países, aliados na OTAN, se intensificaram depois que Sánchez classificou os bombardeios realizados por Estados Unidos e Israel contra o Irã como imprudentes e contrários ao direito internacional.
Em resposta, Trump declarou que os EUA poderiam utilizar as bases “se quisessem”, afirmando que “ninguém vai nos dizer que não podemos usá-las”.

Foto: Mark Schiefelbein/Divulgação AP.
Após as declarações do presidente norte-americano, o governo espanhol reiterou que os Estados Unidos devem respeitar as normas do direito internacional e os acordos bilaterais firmados com a União Europeia.
A Comissão Europeia também saiu em defesa da Espanha e afirmou estar “pronta” para proteger os interesses do bloco europeu diante de eventuais medidas comerciais de Washington.
Sánchez comparou o atual cenário à Guerra do Iraque, destacando consequências como o aumento do terrorismo jihadista e a alta nos preços da energia. Para ele, os efeitos da ofensiva contra o Irã são incertos e podem agravar a instabilidade internacional.
Durante entrevista na Casa Branca, ao lado do primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz, Trump afirmou que os ataques ao Irã foram bem-sucedidos e declarou que “tudo foi destruído”.
Ele também mencionou bombardeios contra o prédio da Assembleia dos Peritos, órgão responsável por escolher o líder supremo iraniano, e disse esperar uma mudança de liderança no país.
Enquanto isso, um general da Guarda Revolucionária do Irã, Ebrahim Jabari, advertiu que, se os ataques continuarem, “todos os centros econômicos” do Oriente Médio poderão ser alvo de retaliação.
Segundo ele, o Irã pode fechar o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo, o que pressionaria ainda mais o mercado internacional.
O barril do petróleo tipo Brent ultrapassou os 85 dólares nesta terça-feira, atingindo o maior valor desde julho de 2024, em meio à escalada das tensões no Oriente Médio.