05/09/2026

PIAUÍ

Hackers desviam mais de R$ 2 milhões de contas da Saúde da Prefeitura de União

Criminosos se passaram por equipe de suporte da Caixa Econômica, obtiveram acesso remoto aos computadores da administração municipal e realizaram transferências bancárias

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Publicado por: Beatriz Mesquita 27/07/2026, 18:48

Um ataque cibernético desviou mais de R$ 2 milhões, na última quarta-feira (22), de contas da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura de União, no Piauí, após criminosos se passarem por funcionários da Caixa Econômica Federal. O golpe foi descoberto na manhã seguinte, quando servidores identificaram movimentações bancárias não autorizadas. A Polícia Federal instaurou um inquérito para investigar o caso, enquanto o município aguarda um posicionamento da instituição financeira sobre a possível recuperação dos recursos.

O golpe teve início após a Ouvidoria da Prefeitura de União receber um e-mail de pessoas que se apresentavam como integrantes da equipe de suporte da Caixa Econômica Federal. Na mensagem, os supostos funcionários solicitaram o contato do setor financeiro do município.

Sede da Prefeitura de União-PI (Foto: Reprodução/Google Street view)

Segundo a secretária municipal de Saúde, Elaine Menezes, após receber o telefone do tesoureiro, os criminosos passaram a orientar os servidores por ligação telefônica e alegaram que seria necessária uma atualização no sistema bancário.

“Eles pediram para deixar a máquina ligada o tempo que conseguisse ficar ligada, tanto a da Tesouraria da Prefeitura como a da Secretaria de Saúde. Diziam que estavam atuando na atualização do sistema”, relatou.

De acordo com a secretária, os golpistas orientaram que os dois computadores utilizados nas movimentações bancárias permanecessem ligados enquanto o suposto procedimento era realizado.

“A gente não conseguiu ver nada na tela do computador. O computador ficou com a tela escura e só movimentação de mouse. Eles diziam que era assim mesmo, que ainda tinha mais dez minutos para finalizar a atualização e que a gente não desligasse as máquinas”, afirmou Elaine.

Secretária municipal de Saúde, Elaine Menezes (Foto: Arquivo Pessoal/ Elaine Menezes)

Somente na manhã seguinte, durante a conferência de rotina dos saldos bancários, os servidores perceberam que diversas transferências haviam sido realizadas sem autorização.

“Quando a gente retornou, já viu os saldos das contas deduzidos, com várias transferências”, disse Elaine.

O prejuízo ultrapassa R$ 2 milhões e atingiu cinco contas da Secretaria Municipal de Saúde mantidas na Caixa Econômica Federal.

Segundo a gestora, os recursos desviados eram destinados ao funcionamento da rede pública de saúde.

“Eram emendas parlamentares, em sua grande maioria, destinadas ao pagamento de fornecedores, manutenção da atenção básica, média e alta complexidade, aquisição de medicamentos e pagamentos de fornecedores”, explicou.

Após identificar a fraude, a prefeitura comunicou imediatamente a Caixa Econômica Federal. As contas foram bloqueadas e o município solicitou os extratos bancários para rastrear as movimentações.

“Foi onde a gente conseguiu ver de fato as transações, para onde eles transferiram, quais foram os CNPJs e os valores que eles deduziram de cada conta”, afirmou a secretária.

Segundo Elaine, a maior parte das transferências teve como destino CNPJs do Ceará.

Polícia Federal investiga

Logo após a descoberta do golpe, a prefeitura registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil e encaminhou o caso à Polícia Federal, por envolver recursos federais destinados à saúde.

A advogada da Prefeitura de União, Polyana Sanches, afirmou que todas as medidas administrativas e policiais foram adotadas imediatamente.

“A gente deu entrada em todos os procedimentos junto à instituição bancária, que é a Caixa Econômica, junto à Polícia Civil e à Polícia Federal também, por ser um crime federal”, declarou.

Polícia Federal (Foto: PF/Ascom)

Segundo a advogada, as primeiras apurações apontam que o ataque segue um padrão já identificado em outras cidades brasileiras.

“O que a gente conseguiu apurar é que esse golpe está bem recorrente nas prefeituras, sobretudo nos recursos da saúde. É um golpe muito bem arquitetado em que ficou discriminada a questão de uma falha no sistema e uma atualização do sistema.”

Para Polyana, os criminosos demonstravam conhecer detalhes da estrutura financeira do município.

“A pessoa que introduziu esse contato sabia de todas as informações bancárias da prefeitura, sabia de todas as inconsistências que existiam.”

A advogada também acredita que a fraude tenha sido praticada por uma organização especializada em crimes cibernéticos.

“Provavelmente sim. Pelos artefatos utilizados, foi algo muito arquitetado. O que causa estranheza é que foram feitas transferências de valores muito vultuosos. Em um órgão público, essas movimentações passam por duplas verificações e eles conseguiram fazer isso de uma forma muito fácil.”

Serviços podem ser afetados

O município agora aguarda a resposta da Caixa Econômica Federal sobre a possibilidade de restituição dos recursos. Enquanto isso, a Secretaria Municipal de Saúde avalia os impactos financeiros provocados pelo golpe.

Brasília: Prédio da Caixa Econômica Federal. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Segundo Elaine Menezes, parte dos pagamentos previstos poderá sofrer atrasos caso os valores não sejam recuperados.

“O que a gente tem de execução com esse recurso, a gente não vai conseguir finalizar. Os recursos já eram destinados aos nossos planejamentos. Fornecedor sem receber não vai conseguir continuar fornecendo, e isso acarreta prejuízo para a manutenção dos serviços.”

Apesar disso, a secretária garantiu que a prefeitura buscará manter o atendimento à população.

“A gente planeja toda a execução dos nossos recursos e realmente caiu nessa falha através desses golpistas. Vamos estar sempre atentos para que isso não venha a ocorrer novamente. O município não vai deixar, de forma alguma, de prezar pelo seu compromisso com a população em relação à saúde.”

Segurança reforçada

Após o ataque, a prefeitura substituiu todos os computadores utilizados nas movimentações financeiras, alterou senhas, renovou as chaves de acesso bancário e reforçou os protocolos internos de segurança.

“Hoje as máquinas foram todas trocadas. Também mudamos todas as senhas e as chaves bancárias. É isso que a gente pode fazer porque o sistema realmente é do banco”, afirmou Elaine.

Caso semelhante em Minas Gerais

O ataque registrado em União tem características semelhantes ao ocorrido neste ano na Prefeitura de Felixlândia, em Minas Gerais. Na ocasião, criminosos também enviaram um e-mail se passando pela equipe de suporte de uma instituição bancária e convenceram servidores a permitir uma falsa atualização do sistema. Com acesso remoto aos computadores da administração municipal, os golpistas desviaram milhões de reais de contas da prefeitura, da saúde e da educação. O caso passou a ser investigado pelas autoridades e reforçou o alerta sobre a atuação de organizações especializadas em fraudes eletrônicas contra órgãos públicos.

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