Antropólogo Arnaldo Eugênio alerta que apenas repressão policial não basta para conter o fenômeno.
O avanço do crime organizado não é mais um problema exclusivo das capitais. Longe das manchetes e da vigilância das grandes cidades, facções criminosas silenciosamente expandem seu domínio por cidades do interior do Piauí. Mas por que essa migração acontece? E quais são as consequências? Para desvendar esse fenômeno, a nossa reportagem ouviu o antropólogo Arnaldo Eugênio, especialista em crime organizado.

Dabarti CGI | Crédito: Shutterstock
A expansão dos grupos criminosos para as cidades do interior do Piauí e em outros estados também acontece. Isso está relacionado, primeiro, com a tentativa de aumentar a atuação em territórios cada vez maiores, oferecendo força e poder em relação a outros grupos. Também tem relação com a atuação mais repressiva das forças de segurança nas capitais e regiões portuárias, o que faz com que eles migrem para espaços com menor vigilância, onde podem atuar livremente e construir novos territórios de poder.
Para Arnaldo, não basta apenas a repressão policial. É preciso entender que o tráfico funciona como um mercado, que precisa de consumidores — e os jovens, por sua vulnerabilidade, acabam sendo o público-alvo dessas organizações.
Hoje já temos casos de jovens sendo assassinados dentro da escola, jovens traficando dentro da escola, disputando espaços. Isso é muito mais amplo e complexo, e precisa de um entendimento multisetorial, com políticas públicas também multisetoriais. Enquanto tivermos apenas a visão maniqueísta de quem está no tráfico, sem perceber que as raízes do problema são muito mais profundas, envolvendo relação de poder, dinheiro, lucro e até o tráfico internacional de drogas, não teremos soluções efetivas.
O alerta do especialista é claro: enquanto o problema for visto apenas como uma questão de polícia, as raízes do crime organizado continuarão se aprofundando. A expansão das facções para o interior do Piauí é um reflexo de uma sociedade com jovens vulneráveis e sem oportunidades. A verdadeira batalha contra o crime começa bem antes, com políticas que protejam a infância e a juventude, oferecendo a eles um caminho para longe da violência.