A jornada cairia para 40 horas, diminuindo uma hora por ano até alcançar as 36 horas semanais
Matéria de Júlia Castelo Branco.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende colocar o fim da escala de trabalho 6×1 como uma das principais pautas de 2026, ano marcado por eleições no Executivo e no Legislativo federal. A proposta pode alterar a rotina de mais de 33 milhões de trabalhadores com carteira assinada e prevê a redução gradual da jornada semanal, sem diminuição salarial.
Atualmente permitida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), criada na década de 1940, a escala 6×1 estabelece seis dias de trabalho para um de descanso.
Uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que avançou na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, propõe reduzir a carga horária semanal de 44 para 36 horas, texto relatado pelo senador Rogério Carvalho (PT-SE).
Segundo o senador, a transição ocorreria ao longo de cinco anos e meio a seis anos, com redução progressiva: no primeiro ano, a jornada cairia para 40 horas, diminuindo uma hora por ano até alcançar as 36 horas semanais.
Na prática, o modelo pode resultar em dois dias de folga por semana, substituindo a escala 6×1 por formatos como o 5×2, ou outros acordados por meio de negociação coletiva.
A discussão reflete diretamente na vida de trabalhadores como Beatriz Menezes, de 18 anos, que está em seu primeiro emprego formal. Com uma jornada que se estende até a noite, ela relata cansaço extremo e dificuldades para conciliar trabalho, estudos e convivência familiar.
“Eu acabei trancando a faculdade porque não estava dando conta de trabalhar e estudar ao mesmo tempo”, conta. Para ela, a redução da jornada significaria mais tempo para descanso e qualificação profissional.
Empresários, no entanto, demonstram preocupação com os impactos econômicos da medida. Representantes do setor produtivo alertam para o possível aumento de custos e efeitos negativos na geração de empregos, especialmente para pequenas empresas.
A Confederação Nacional do Comércio defende que mudanças sejam feitas por meio de negociação coletiva, buscando equilíbrio entre qualidade de vida do trabalhador e sustentabilidade das empresas.
Na Câmara dos Deputados, há propostas alternativas. O deputado Luiz Gastão (PSD-CE), relator de um projeto que limita o trabalho aos fins de semana, afirma que a redução abrupta da jornada pode inviabilizar pequenos negócios. Para ele, o debate no Senado teria um viés mais eleitoral.
O tema ganha força em meio a um cenário positivo no mercado de trabalho. A taxa de desemprego caiu para 5,4% no trimestre encerrado em outubro, a menor da série histórica do IBGE, o país soma mais de 100 milhões de pessoas ocupadas e 39 milhões com carteira assinada.
Entre janeiro e outubro de 2025, foram criadas 1,8 milhão de vagas formais, com destaque para os setores de comércio e serviços.
Movimentos sociais também pressionam por mudanças mais profundas. Grupos como o “Vida Além do Trabalho” defendem modelos ainda mais reduzidos, como a escala 4×3, com quatro dias de trabalho e três de descanso. A deputada Érika Hilton é uma das principais vozes dessa proposta.
Para o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, o governo já tem posição definida e defende uma escala máxima de cinco dias de trabalho por dois de descanso. Segundo ele, a prioridade é aprovar o fim da escala 6×1 pelo caminho mais rápido no Congresso Nacional.
Enquanto o debate avança no Legislativo, trabalhadores como Beatriz aguardam mudanças que permitam conciliar emprego, estudo, descanso e vida pessoal. “O trabalho é importante, mas também é fundamental ter equilíbrio e tempo para viver”, afirma.
Fonte: Cidadeverde.