Esporte

Dívidas trabalhistas e jejum de títulos marcam crise institucional no Flamengo-PI

Há 12 anos sem levantar a taça do Piauiense, Rubro-Negro enfrenta imbróglio na Justiça e tem futuro incerto

Publicado por: Eric Souza 02/01/2022, 08:15

Matéria de Eric Souza e Tamires Freitas

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O Esporte Clube Flamengo é uma das instituições esportivas mais tradicionais do Piauí. Fundada em 1937 pelo então senador Raimundo Melo de Arêa Leão, a equipe conquistou o primeiro título estadual apenas dois anos depois, e nas décadas de 50 e 60 estabeleceu a principal rivalidade do futebol piauiense com o River Atlético Clube, que recebeu a alcunha de “Rivengo”.

Desde então, o Mais Querido registrou em sua sala de troféus 17 títulos do Campeonato Piauiense, quatro da Copa Piauí e diversas outras competições regionais não oficiais. Realizou também campanhas de destaque em todas as quatro divisões do Campeonato Brasileiro e na Copa do Brasil.

Jogadores do Flamengo-PI saúdam a torcida antes de partida (Foto: Reprodução)

Em 2001, protagonizou um feito histórico: avançou às oitavas de final da copa nacional após superar Moto Club na primeira fase e Sport Recife na segunda, caindo somente diante do Corinthians. Até o presente momento, nenhum outro clube do Piauí alcançou façanha semelhante à do Rubro-Negro no torneio.

A última vez que a equipe se sagrou campeã estadual foi em 2009, com duas vitórias por 1 a 0 contra o 4 de Julho, de Piripiri, na grande decisão. De lá para cá, o Flamengo-PI amarga um jejum de 12 anos sem levantar a taça do Piauiense, bem como deixou de figurar em competições nacionais há sete anos.

Essa sequência negativa impactou significativamente a torcida do Mais Querido, que passou a adotar uma postura de descrença em relação ao desempenho do clube. Na visão de um torcedor do Flamengo-PI há quase 60 anos, que preferiu se identificar apenas como José, são necessárias profundas mudanças na estrutura do clube, mas a agremiação não apresenta condições para realizá-las.

Flamengo-PI x River: o maior clássico do futebol piauiense (Foto: Reprodução)

“Mudar o Flamengo do jeito que está hoje é muito difícil, teria que ser um investimento muito alto, infelizmente aqui não temos esse investimento e também não tem como acreditar nas pessoas que lá estão, se vão fazer alguma coisa”, lamenta.

Além dos constantes insucessos dentro de campo, o Leão passou a lidar com sérios problemas fora dos gramados. Em 2018, a Justiça do Trabalho expediu decisões judiciais que determinavam ao clube o pagamento de dívidas trabalhistas, relativas a férias e ao 13º salário de jogadores e funcionários do clube.

Entretanto, a instituição não cumpriu as medidas e se recusou por várias vezes a comparecer aos tribunais quando convocada. De acordo com o procurador do Trabalho Edno Moura, os dirigentes do Flamengo-PI justificavam a omissão e a não execução das decisões com a ausência de patrimônio suficiente para efetuar os pagamentos.

Procurador Edno Moura explica processos judiciais contra Mais Querido (Foto: Divulgação/MPT-PI)

“O Flamengo-PI não detém patrimônio e confiando nisso, neste fundamento, simplesmente se omitia, não efetuava os pagamentos e não comparecia perante à Justiça ou ao Ministério Público. Diante dessa conduta não restou outra alternativa senão adotar medida dessa natureza. Todas as outras maneiras foram tentadas, esse processo é de 2018, mas tem outro de 2014. Durante todo esse período o MP tentou notificar todos os presidentes do Flamengo-PI, e eles sempre deixavam de comparecer”, esclareceu.

Segundo Edno, a situação do Leão não é inédita, mas reflete o histórico de violação de direitos de atletas e funcionários da grande maioria dos clubes do Piauí. O procurador elenca as dificuldades financeiras e o amadorismo das gestões como os principais responsáveis pela insegurança trabalhista verificada no futebol piauiense.

“Isso decorre da dificuldade econômica dos clubes, não é fácil fazer futebol no Piauí, arrecadação é pequena, dificuldade em conseguir atrair público aos estádios, conseguir patrocínios e efetuar pagamentos. Outro fator é o amadorismo das administrações, são pessoas mais voluntariosas do que profissionais, eles não se preparam, não possuem assessorias jurídicas, contábeis, não cumprem com suas obrigações. Não dá para fazer uma gestão de clube apenas por voluntarismo, é preciso se preparar, analisar o cenário e verificar se há condições de cumprir com os vários compromissos”, pontuou.

Após ação do MPT, Justiça do Trabalho aplicou suspensão ao Flamengo-PI (Foto: Divulgação/MPT-PI)

Dessa forma, em setembro deste ano, o Ministério Público do Trabalho do Piauí (MPT-PI) entrou com ação na 2ª Vara do Trabalho de Teresina, que decidiu proibir o Flamengo-PI de disputar competições esportivas enquanto não contornasse as irregularidades trabalhistas e pagasse uma multa de cerca de R$ 150 mil.

Na decisão do juiz substituto Gustavo Ribeiro Martins, consta que o Rubro-Negro deixou de atender às determinações impostas pela Justiça mesmo tendo sido constantemente notificado. Juntamente ao clube, a Federação de Futebol do Piauí (FFP) também foi punida com uma multa de R$ 10 mil por descumprir medida judicial que obrigava a retenção do repasse de créditos financeiros ao Flamengo-PI enquanto o imbróglio perdurasse.

Horas depois de a decisão do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) vir a público, a FFP suspendeu a partida entre Flamengo-PI e River pelo Campeonato Piauiense sub-17, válida pela 2ª rodada do torneio de base. Posteriormente, a entidade excluiu o clube da competição, justificando em nota oficial a atitude “em razão do despacho proferido pela 2ª Vara do Trabalho de Teresina”.

Presidente da FFP alega ter cumprido decisão da Justiça ao suspender Rubro-Negro (Foto: Ascom/FFP)

Questionado a respeito da medida, o presidente da FFP Robert Brown foi enfático. “O comportamento da federação foi de cumprir a determinação judicial; atendemos e iremos atender todas que cheguem. Quando a Justiça mandou que o Flamengo-PI ficasse afastado, nós cumprimos”, afirmou.

A princípio, a temporada 2022 do Mais Querido estava sob grave ameaça. Porém, a diretoria do clube prontamente reagiu e se mobilizou para reverter a decisão judicial. Rubens Gomes, presidente do Flamengo-PI há três anos, alega que as dificuldades em gerir o clube foram herdadas de seus antecessores.

“Com muita tristeza recebemos o Flamengo nessa situação, são problemas acumulados por 30-40 anos, frutos de administrações não profissionais. Recebemos com pesar o problema da Justiça do Trabalho, que fez com que a gente parasse de trabalhar. Mas fomos atrás de uma advogada para cuidar dos direitos do clube”, relatou.

O dirigente conta que a defesa do Rubro-Negro contestou a proibição na Justiça e conseguiu uma liminar da 2ª Vara do Trabalho, expedida pela juíza Basiliça Alves da Silva, que o autorizou a voltar a disputar competições esportivas sob a condição de destinar 50% da renda das partidas ao pagamento das obrigações trabalhistas ainda pendentes. Rubens garante que o clube cumprirá a medida dentro de suas possibilidades.

Presidente do Flamengo-PI assegura que clube pagará dívidas com metade das rendas de partidas (Foto: Reprodução/Facebook)

Com o resultado favorável nos tribunais, o Flamengo-PI correu contra o tempo para definir sua nova comissão técnica, visto que o treinador da equipe em 2021, Aníbal Lemos, deixou o clube para assumir o comando do sub-23 do Fluminense-PI, e os jogadores que comporão o elenco da próxima temporada. “Estamos viabilizando o Flamengo-PI para o Piauiense e vamos tentar buscar o título para, aí sim, capitalizarmos o clube para o ano seguinte, fazendo parcerias com patrocinadores para formar um time forte”, completou o dirigente.

À frente da equipe estará o treinador paulista Jorge Saran, contratado em novembro, com passagens por Mirassol, América-SP, Vila Nova, Londrina e categorias de base do Corinthians. Seu último trabalho foi na Jataiense, que disputou o Campeonato Goiano em 2021.

Ao desembarcar no Piauí no início de dezembro, Saran demonstrou confiança em ajudar o Rubro-Negro a recuperar seu prestígio nos cenários estadual e nacional. “Sobre decidir título do Piauiense, não é só sonho do torcedor, mas meu, da comissão técnica e dos jogadores. Vamos fazer de tudo, um trabalho diferenciado. Para isso acontecer, a gente vai precisar do apoio de todos os torcedores do Flamengo-PI. Tenho certeza que vão estar com a gente ao ver que o trabalho é sério”, declarou.

Contudo, o novo professor deixa claro que não pretende se envolver nas discussões financeiras e judiciais do clube, preocupando-se apenas com o desempenho da equipe em campo.

Jorge Saran deseja focar apenas no âmbito esportivo do Rubro-Negro (Foto: Rainier Moura/América-SP)

“Ele (presidente) está me dando condições para montar um time forte, então eu tenho que viver o dia a dia. Deixo a questão extracampo para a diretoria resolver, a gente tem que ter jogo de cintura para saber lidar com esse tipo de situação. Está difícil para todo mundo nesses dois anos de pandemia, todo clube passa por situação difícil, com o Flamengo-PI não seria diferente. Se me derem condições para montar um bom time, uma boa estrutura, é o que eu preciso”, salientou.

Sem jogar desde abril deste ano, quando foi derrotado pelo 4 de Julho na última rodada da fase inicial do Piauiense e desperdiçou a chance de se classificar à Série D do Brasileirão, o Flamengo-PI volta aos gramados em janeiro de 2022, quando enfrentará o próprio Gavião Colorado no Lindolfo Monteiro, em Teresina, pela abertura da primeira etapa da competição estadual.

Para Alessandro Soares, ex-jogador que atuou pelo Flamengo-PI por seis temporadas, o Rubro-Negro tem chances de voltar a disputar títulos e conquistar vagas em torneios nacionais. Mas para alcançar esses objetivos precisa se organizar e trabalhar com a sua realidade, em especial na parte financeira.

“A maioria dos clubes do futebol piauiense e nordestino passa por esse tipo de situação. O lado financeiro prejudica muitos times pequenos, mas é planejamento, acho que tem que correr atrás de patrocínio. É muito difícil, principalmente no Piauí, mas devemos acreditar que as equipes piauienses possam alavancar suas posições e o Flamengo-PI também possa crescer”, pontuou.

Escudo do Flamengo-PI é pesado, mas foi fragilizado nos últimos anos (Foto: Divulgação/E.C. Flamengo)

O desfecho do imbróglio na Justiça ainda é incerto, bem como a situação dos cofres do clube. Também não se sabe como as peças adquiridas para a nova temporada se comportarão durante as partidas, muito menos se conseguirão devolver a taça do Piauiense à torcida do Mais Querido. Portanto, o que resta aos entusiastas do Flamengo-PI é somente torcer para que 2022 marque o retorno do Leão às glórias conquistadas no passado.

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