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Carta para Josefa, minha avó

26 de julho de 2019

Hoje é o dia dos avós. Dia dedicado a São João Joaquim e Sant’Ana, os avós de Jesus.

Neste dia, por mais paradoxal que possa parecer, recorro a uma carta de um ateu chamado José Saramago, para enaltecer a figura da vó. Saramago, autor entre outras de O evangelho segundo Jesus Cristo, escreveu em, 1978:

Carta para Josefa, minha avó…

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito.

Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregastes à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias.

De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal.

Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los.

Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte.

Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidastes, sete vezes destes à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião.

Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar.

Com isto vivestes e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha.

Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives.

Para ti, a palavra Vietnã é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio.

Da fome sabes alguma coisa: já vistes uma bandeira negra içada na torre da igreja.

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre.

O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo.

Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo.

Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo.

Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: herança de quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro.

Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender.

Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem te roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender.

Já não vale a pena.

O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado o mundo que te era devido porque as minhas palavras não são as tuas.

Fico com esta culpa de que não  me acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.

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