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O cajueiro do menino Humberto

6 de agosto de 2019

Não se sabe por que, mas a verdade é que nossos poetas preferem morrer em fim de ano.

Eles preferem ou é uma simples escolha do destino?

Mais uma pergunta sem resposta.

O fato é que neste período que vai de outubro a dezembro, exatamente quando vai se aproximando o período do Natal e do Ano Novo, muitos se encantaram.

Foi assim, por exemplo, com Gregório de Matos, Manoel Bandeira, Manuel Antônio de Sousa, Cecília Meireles, Augusto dos Anjos, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa e Humberto de Campos.

O nome de Humberto de Campos ficou no fim da fila de maneira proposital.

Humberto de Campos, apesar de maranhense, é um poeta que tem fortes ligações com o Piauí. Dezembro de 2019 marca os 85 de sua morte

Humberto de Campos passou boa parte de sua infância em Parnaíba.

Foi ali que aprendeu suas primeiras letras.

Foi ali que também descobriu seus pendores poéticos, o que o levou a escrever e a encantar o Brasil inteiro.

Humberto de Campos se foi.

Foi para São Luís, de lá para o Pará até chegar ao Rio de Janeiro, o grande centro cultural do país.

Graças a sua obra e ao seu talento foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira de número 20.

Humberto de Campos se foi.

Foi, mas deixou sua marca no Piauí.

Deixou uma marca que sobrevive ao tempo e continua até hoje a denunciar a sua presença.

Humberto de Campos deixou um cajueiro.

Cajueiro que ele próprio plantou no distante ano de 1896 e que ainda hoje, mais de 120 anos depois, representa o próprio Humberto de Campos entre nós.

O cajueiro de Humberto de Campos é uma grata lembrança para todos nós.

Lembrança que tem seu registro na história, graças à crônica que o jovem Humberto escreveu quando chegou a hora do adeus, quando chegou a hora de partir para longe.

Meu Cajueiro…

Aos treze anos de idade, e três da sua, separamo-nos, o meu cajueiro e eu.

Embarco para o Maranhão, e ele fica.

Na hora, porém, de deixar a casa, vou levar-lhe o meu adeus.

Abraço-me ao seu tronco, aperto-o de encontro ao meu peito.

A resina transparente e cheirosa corre-lhe do caule ferido. Na ponta do ramo mais alto abotoam os primeiros cachos de flores miúdas e arroxeadas, como pequeninas unhas de criança com frio.

– Adeus, meu cajueiro. Até a volta!

Ele não diz nada, e eu me vou embora.

Da esquina da rua, olho ainda por cima da cerca, a sua folha mais alta, pequenino lenço verde, agitado em despedida.

E estou em São Luís, homem-menino, lutando pela vida, enrijando o corpo no trabalho duro e fortalecendo a alma no sofrimento, quando recebo uma comprida lata de folha acompanhando uma carta de minha mãe: “Receberás com esta uma pequena lata de doce de caju em calda. São os primeiros cajus do teu cajueiro. São deliciosos, e ele te manda lembranças”.

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