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A ilha da vergonha

8 de outubro de 2019

O escritor português José Saramago, um dos grandes nomes da literatura mundial, lançou  em 1997 o livro “O Conto da ilha desconhecida”.

E lá ele diz que é preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós.

O português tem razão.

Mesmo proporcionando várias interpretações mundo afora, todos concordam que é preciso se afastar do meio para enxergar melhor o problema.

 

Para ver a ilha é preciso sair, é preciso se afastar mesmo por uns poucos dias ou por um instante apenas.

 

Esse ver a ilha pode ser um sair da cidade por alguns poucos dias. Pode ser sair do estado ou do país. Pode ser simplesmente uma saída do meio. Sair um pouco do meio em que você vive a sua rotina do dia a dia.

 

Foi o que fiz.

Afastei-me da ilha por alguns dias – como recomendou José Saramago – e pude ver o que a própria ilha me impedia de enxergar.

 

Sinceramente, não gostei do que vi.

Nossa ilha é feia, muito feia.

Foi preciso me afastar para enxergar melhor; foi preciso sair para perceber que nossa ilha fede e destoa em praticamente tudo quando comparada com outras.

 

De centenas de ilhas observadas, nada se parece com a nossa. Aqui tudo é feio.

 

Enquanto em outras ilhas a população vive alegre e feliz, na nossa ilha vivemos acabrunhados e de cabeça baixa.

Nas outras ilhas a população sabe que tem justiça. Na nossa não.

 

Nas outras ilhas, preso sonha com a liberdade. Sonha dia e noite em sair da prisão. Na nossa não.

Aqui preso sonha em continuar preso, nem que isso signifique desafiar a própria lei.

 

Somo diferentes das demais ilhas. E como somos.

 

De fora podemos realmente enxergar melhor.

 

Nas demais ilhas, a imprensa – ou boa parte dela – caça corruptos, denuncia ladroes do dinheiro público. Na nossa ilha, apenas proclamamos nossos inocentes. E isto basta. É mais do que suficiente.

 

Não interessa saber quem é o corrupto, quem é o ladrão. O que nos interessa mesmo é a garantia do nosso espesso manto protetor sobre nossos injustiçados e inocentes. O que interessa mesmo é a nossa verdade, porque a nossa verdade dói bem menos. Aliás, a nossa verdade sequer dói. É de mentirinha.

 

É realmente preciso sair da ilha para ver a ilha.

Temos que sair de dentro de nós mesmos se realmente queremos enxergar mais longe.

É preciso sair.

É preciso conhecer outras ilhas para avaliar melhor a nossa.

É preciso comparar, por que só assim formaremos uma consciência mais crítica. Ou pelo menos passaremos a sentir vergonha.

E sentir vergonha a estas alturas, sem dúvida, já seria uma grande vitória. 

 

 

 

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